(Animação de Pixel Art) Três toupeiras saindo da terra. A do meio carrega um moicano e óculos escuros, a da esquerda com moicano e a da direita de cabelo raspado e tapa olho.

Quadrinho Encruzilhada sendo segurado por uma mão em um fundo psicodélico vermelho e azul. Na capa tem o título Encruzilhada seguido do nome do autor Marcelo D'Salete, e uma ilustração de três pessoas pretas, à frente, um homem negro que usa regata e cabelo curto raspado, e fuma um cigarro e a fumaça se dispersa tomando conta da capa, atrás tem uma pessoa preta de capuz e boné, e mais atrás uma mulher negra de coque e brincos aparece de olhos fechados e cruzando os braços.

Nas prateleiras da Biblioteca Comunitária da Vila Castilho, na seção de quadrinhos, encontra-se Encruzilhada, de Marcelo D’ Salete. O quadrinho de 157 páginas, conta com um compilado de 6 histórias: Sonhos, *93079482*, Corrente, Brother, Encruzilhada e Risco, todas passadas no subúrbio do território moedor de gente chamado brasil.

Animação que mostra pequenos quadrados em um fundo totalmente branco que aparecem toda vez que se inicia uma nova estória do quadrinho. quadrado 1 - uma sombra de um avião passando pelo céu. quadrado 2 - pessoa portando uma faca olhando para frente. quadrado 3 - mão segurando uma santa. quadrado 4 - mulher negra de óculos de grau e black power segurando um DVD. quadrado 5 - mão de adulta com uma mãozinha de criança segurando seu dedo. quadrado 6 - pessoa erguendo a mão cumprimentando e de fundo uma peça de marketing da cidade ao lado de uma pixação.

Cada uma das estórias introduzem o leitor com um pequeno quadrado com uma imagem que a representa.

Encruzilhada é um quadrinho que fala sem falar, a gente pode perceber pelas poucas falas e muitas imagens, expressando o silêncio mórbido da cidade, algo também barulhento onde a imposição do concreto urbano é um grito impiedoso da selva de pedra espremedora de carne, palco este permeado pelo kaos do cotidiano.

Foto de uma série de 6 quadros do quadrinho, no primeiro tem a logo do carrefour, depois um homem negro aparece despreocupado com uma chave na mão, percebe que está sendo seguido no estacionamento por um segurança, aparece preocupado, e o segurança se aproxima, o último quadro é o homem que está sendo perseguido enquadrado na câmera do supermercado.

Exemplo de um trecho do quadrinho sem fala alguma, de um silêncio amedrontador.

A história que mais gostei foi Brother, a 4º história, que retrata algo importante pra cultura popular, a Pirataria e o trabalho dos disseminadores da cultura pela cidade, também conhecidos como Camelôs, no caso protagonizados por mãe e filha. Dentro dessa história, sutilmente é retratado também o êxodo rural, de quem sai do interior para tentar uma vida na cidade, se deparando com as reviravoltas e encruzilhadas presentes neste espaço.

Foto de uma série de quadros adentrando uma casa periférica e expandindo para o PC e um CD que é segurado na mão por uma mulher negra, as falas dos quadros são -Como você faz? -Baixo o filme da net. Gravo em DVD virgem. -Imprimo a capa. Pronto. Pode levar lá pro centro. -Toma cuidado com o rapa.

Trecho da estória: Brother

Foto da capa de um filme pirateado La Haine, onde há três pessoas, duas brancas e uma preta, sendo que a pessoa branca que se localiza no meio aponta uma arma.

Capa do filme O Ódio, um dos filmes pirateados na estória, aparece retratada no traço de Marcelo D'Salete

Outra que gostei bastante foi a história que encerra o quadrinho, que se chama: Risco, que trata da violência policial/agentes de "segurança" e genocídio do povo negro e periférico, recorrente neste quadrinho, presente na maioria das 6 tramas. Risco escancara também a desigualdade social e o ódio de classe no capitalismo, é um soco no estômago, mostrando gente com boas condições, que devido a alienação de classe e egoísmo consumista, acaba esmurrando quem está na miséria da pirâmide capitalista. Esta mesma estória mostra também um exemplo de como o uso das câmeras e erguer a voz podem ser ferramentas de proteção contra a violência policial, câmeras que não eram tão presentes assim na época de lançamento do quadrinho, 2011.

Foto de uma série de quadros onde a violência policial é flagrada com uma câmera, o verme policial fala -Tu sabe o que acontece com os heróis? Uma mão segura a cabeça de um rapaz negro ferido enquanto uma arma é apontada para ele, e um verme policial observa sadicamente.

Essas duas estórias são só um exemplo dos temas abordados, todas são muito boas, e me deixou curioso para ler mais histórias do autor Marcelo D’ Salete futuramente, que publicou quadrinhos premiados como Angola Janga – Uma história de Palmares (2017) e Cumbe (2018). No mais é isso, até a próxima postagem no blógue minha gente!