Nas prateleiras da Biblioteca Comunitária da Vila Castilho, na seção de quadrinhos, encontra-se Encruzilhada, de Marcelo D’ Salete. O quadrinho de 157 páginas, conta com um compilado de 6 histórias: Sonhos, *93079482*, Corrente, Brother, Encruzilhada e Risco, todas passadas no subúrbio do território moedor de gente chamado brasil.
Cada uma das estórias introduzem o leitor com um pequeno quadrado com uma imagem que a representa.
Encruzilhada é um quadrinho que fala sem falar, a gente pode perceber pelas poucas falas e muitas imagens, expressando o silêncio mórbido da cidade, algo também barulhento onde a imposição do concreto urbano é um grito impiedoso da selva de pedra espremedora de carne, palco este permeado pelo kaos do cotidiano.
Exemplo de um trecho do quadrinho sem fala alguma, de um silêncio amedrontador.
A história que mais gostei foi Brother, a 4º história, que retrata algo importante pra cultura popular, a Pirataria e o trabalho dos disseminadores da cultura pela cidade, também conhecidos como Camelôs, no caso protagonizados por mãe e filha. Dentro dessa história, sutilmente é retratado também o êxodo rural, de quem sai do interior para tentar uma vida na cidade, se deparando com as reviravoltas e encruzilhadas presentes neste espaço.
Trecho da estória: Brother
Capa do filme O Ódio, um dos filmes pirateados na estória, aparece retratada no traço de Marcelo D'Salete
Outra que gostei bastante foi a história que encerra o quadrinho, que se chama: Risco, que trata da violência policial/agentes de "segurança" e genocídio do povo negro e periférico, recorrente neste quadrinho, presente na maioria das 6 tramas. Risco escancara também a desigualdade social e o ódio de classe no capitalismo, é um soco no estômago, mostrando gente com boas condições, que devido a alienação de classe e egoísmo consumista, acaba esmurrando quem está na miséria da pirâmide capitalista. Esta mesma estória mostra também um exemplo de como o uso das câmeras e erguer a voz podem ser ferramentas de proteção contra a violência policial, câmeras que não eram tão presentes assim na época de lançamento do quadrinho, 2011.
Essas duas estórias são só um exemplo dos temas abordados, todas são muito boas, e me deixou curioso para ler mais histórias do autor Marcelo D’ Salete futuramente, que publicou quadrinhos premiados como Angola Janga – Uma história de Palmares (2017) e Cumbe (2018). No mais é isso, até a próxima postagem no blógue minha gente!
